quinta-feira, 7 de maio de 2009

A ARTE QUE NÃO ENTEDIA



Num ensaio sobre a literatura de Guimarães Rosa, Benedito Nunes coloca em ordem crescente de valor as qualidades que Rosa perseguia no texto: o enredo, a linguagem, a poesia e a metafísica. É curioso que mesmo sendo um escritor pós-freudiano, ele não tenha se referido à psicologia. E há quem afirme que, depois de Freud, nenhum artista ficou imune à psicanálise.

Mario Benedetti, um uruguaio da geração de Júlio Cortazar e Carlos Fuentes, seria um deles. "Quem de nós", novela publicada em 1950 e só agora editada no Brasil pela Record, é uma longa sessão psicanalítica fora do divã, com poesia e linguagem bem cuidada, um enredo cortaziano surpreendente, em que não falta metafísica.


Dividida em três partes, a primeira delas é a sessão de Miguel. Sozinho em casa, depois que a esposa Alicia decidiu abandoná-lo e partir em busca de Lucas, um amigo que completa um triângulo amoroso de adolescência, ele senta-se e escreve. Apesar da escrita instigante, da crua avaliação que o personagem faz de si mesmo, imaginamos tratar-se de mais um livro em que vários personagens expressam os seus pontos de vista sobre um mesmo tema, no caso, o amor conjugal mal sucedido e a separação. Chegamos a lembrar o conto Num Bosque, do japonês Ryonosuke Akutagawa, em que uma mesma história é relatada de formas diversas, segundo a ótica de cada narrador. Miguel analisa a esposa, o amigo Lucas, os dois filhos, os pais, a amante e, principalmente, a si próprio.


O livro poderia ser um enfadonho consultório sentimental, se Mario Benedetti não fosse um perspicaz investigador das virtudes e dores do homem, sem o medo de vasculhar feridas, fazendo revelações surpreendentes e originais a cada página: No invejoso existe uma vontade, uma atitude de esforço ou, no pior dos casos, de capricho, que indiretamente o faz culto, laborioso, incansável. A inveja é o único vício que se alimenta de virtudes, que vive graças a elas.

O segundo personagem a se deitar no divã de Benedetti é Alicia, a esposa que toma a mesma decisão de Nora, a heroína de "Casa de Bonecas", de Ibsen: abandonar a casa, o marido e dois filhos. A diferença é que Nora deixa o mundo doméstico, onde viveu oito anos, para pensar em si mesma e tentar compreender as coisas. Alicia deixa a casa onde viveu onze anos, escreve uma carta e revela: Não posso mais, vou embora com Lucas. Sua busca possui endereço e destinatário.

O leitor imagina que tudo será previsível no terceiro capítulo, que por motivo óbvio se chama 'Lucas', e certamente terá as confissões do suposto amante, fechando a novela. Mas Benedetti é surpreendente e puxa o tapete sob os pés do leitor. Lucas é um jornalista que escreve contos e em vez de revelar-se em tom confessional, como Miguel e Alicia, prefere transformar o drama que vive num texto literário. Os personagens assumem nomes fictícios no conto de Lucas, narrado no corpo principal da página. Em notas de rodapé, o narrador Lucas explica como elaborou o conto, referindo os nomes reais dos personagens. São duas histórias se narrando dentro de uma mesma história, o que deixa o final da novela em aberto. Um quebra-cabeça ao estilo do que será desenvolvido por Cortazar no seu romance mais famoso, "O Jogo da Amarelinha".

Mario Benedetti nos diz que por mais real que pareça, tudo o que acabamos de ler não passa de uma invenção. É que a arte nunca deixa de ser uma mentira; quando é verdade, já não é arte e entedia, porque a realidade é apenas um irremediável e absurdo tédio.

A REALIDADE PODE SER RICA EM TODOS OS ASPECTOS QUE FIZERMOS POR ONDE SER!!

**Texto elaborado á partir do Livro de Ronaldo Correia de Brito.
***Ronaldo Correia de Brito é médico e escritor. Escreveu Faca e Livro dos Homens.

LI

2 comentários:

  1. Feliz dia das mães!
    Tem flores pra você em meu blog
    beijos
    Mari

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  2. Acredito que muitos artista buscam o real, buscamos uma realidade de individuo para individuo,cada um dentro das suas crenças e seus ideais.

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